Sabe aquelas mil listas de melhores do ano que você leu? Eu também as li. Considero-as uma ótima forma de recapitular o ano.
"Mas então cadê a lista do Dominódromo de melhores músicas internacionais do ano?", você pergunta. Pois digo: gostamos de uma excentricidade por aqui e quisemos fazer algo diferente. A nossa seleção foi só de músicas espetaculares que estiveram em pouquíssimas (ou nenhuma) das tais listas. Achamos que elas merecem uma primeira chance, sabe?
E não diga que esta ausência nas listas foi por um bom motivo. Magoemos menos uns aos outros em 2011. Votos do Dominódromo.
Você encontra alguém pela primeira vez e, ainda assim, surge o sentimento de que o conhece por toda a vida. O destino conspirou: os dois nasceram para ser amigos, namorados, que seja. É um momento raro e deveras especial.
"Time", na minha primeira audição, pareceu uma velha amiga, fez sentido imediato, sabe? Bateria, guitarra, baixo e voz, em cadência perfeita, exatos para o meu gosto.
A rápida identificação é um claro sinal de que eles copiam outras bandas do meu gosto, claro. E quer saber? Achar menos da música por isso seria entojo barato, reclamação de barriga cheia. Se for para não reinventar a roda, que seja de forma tão irrepreensível quanto a dos Beach Fossils.
Grouper, ou Elizabeth Harris, parece ter a mesma ambição de muitos compositores clássicos: criar hinos para divindades. Não que ela acredite em alguma, deixo claro. "Hold" é pura enlevação religiosa, música que ascende a alma e preenche templos e te faz acreditar.
Acreditar em quê? No poder de criação do ser humano, o único que realmente importa, caramba.
Como é sabido para todos aqueles que moram ou moraram sozinhos, não fosse a mágica do tempero do saquinho ou das invenções que nascem do desespero do enjoo - ketchup, requeijão, cheddar derretido -, a dieta diária de Miojo não seria viável.
O electropop é o Miojo da música. Indicador saltando entre teclas, 3 minutos de alguma batidinha programada e rimas de amor; sua paleta sonora pouco muda. A salvação está na melodia, o tempero do saquinho. Enquanto ela for variada e distinta, a mágica do macarrão instantâneo eletrônico perseverará.
Nicholas Ng, o Fiveng, é um mestre-cuca nesta fina arte: "Give Me A Taste" é simples como ramen, mas as especiarias certas estão lá, despejadas em pitadas precisas.
O nome da banda é uma piada com um famoso piloto de Nascar. Não podia ser mais inapropriado: "Vocal Chords" é paciência e placidez, música para andar de bicicleta, tentando acertar as lindas harmonias vocais, tum-tum-tum para ficar esperto, não tenso, com os carros, olha o assobio fácil, agora dá para fazer igual e não parecer tão louco para os outros, se bem que nem estou aí para eles, só seus carros que demandam alguma atenção, obrigado, tum-tum-tum, pela atenção adquirida, eu prometo que vou te levar mais vezes para passear comigo.
Relaxe os ombros e respire fundo; deixe de lado a aflição, a neurose, as pobres unhas das suas mãos. Aquela fagulha de felicidade que está aí dentro de você, vacilante? Deixe "Go Outside" soprá-la, com cuidado, colocando-a para dançar, vestida de laranja, quente, no limite da exaustão. Tudo dará certo, vai por mim.
"Hammock" nem se parece com algo que você ouviria incidentalmente na sua praia de preferência. Uma injustiça: ela cristaliza um verão ideal, daqueles que sempre terminam antes da hora. Você sabe do que estou falando: brisa do mar, preguiça sem culpa, pele quase em ebulição, romance despreocupado com mais nada... De alguma forma mágica, por ecos, poperô e um violão de Gypsy Kings, a música do Millionyoung expressa tudo isso e mais.
Pois viaje com fones de ouvido, carregue aparelhos microsystem por todos os lados, cantarole alto e tome à força o violão daquele cara chato do luau. "Hammock" será seu segundo protetor solar, uma barreira para que o Axé dos outros não desvirtue o seu verão.
O rapaz acaba de lançar um novo (e ótimo) vídeo. É para a música Castles in the Snow. O apreço pela nostalgia continua. E o mais interessante: as imagens são de São Paulo. Alguém conhece de onde elas foram tiradas?
Costumava tirar sarro de baixistas. Pelo quê? Bem, você já deve ter imaginado alguns dos comentários: são os que menos sabem tocar, nunca aparecem nas fotos, mal são ouvidos sob as vozes, guitarras, ou pior, teclados...
Bobagem minha. Mais e mais, sucumbo diante de uma grande linha de baixo. São os baixistas que tornam bandas como Black Eyes, New Order e Professor Murder tão idiossincráticas e especiais. Nada reconforta mais que uma percussão calçada por um pulso grave, insistente e elástico.
Fiquei boquiaberto com o baixo de "Slow", do Twin Shadow. É ele que define a incrível introdução da música, uma entrada digna de causar arrepios. Isto já deveria calar minha boca sobre baixistas.
Mas tem mais: George Lewis Jr. é um multi-instrumentista. Não daria para tirar sarro do sujeito, ainda mais com sua voz de crooner de pop inglês.