Uma música linda chega aos ouvidos e nada mais importa: você precisa saber de onde ela está vindo, e quem a está tocando, e como são os seus cabelos, e os seus olhos, e o seu jeito de se vestir, e as suas mãos, e os seus pequenos sorrisos tímidos, e os seus pequenos tiques, e as suas pequenas observações que preenchem o desconforto entre as canções.
Mas não se engane. No fim do rastro crescente do som, você encontrará ninguém; apenas um toca-fitas empoeirado, triste, dando voltas em si. O tempo da transmissão deixou de ser real. Restaram pulsos fantasmagóricos do que um dia foi gênese, vida, criação; a fita magnética, um resumo canhestro de toda uma existência, irredutível em sua síntese. Puxar sua tripa à força, até a raiz, revelará mais nada, senão plástico duro e morto, de onde nada nasce e nunca nasceu.
Não, é claro que não é a mesma coisa. Mas é alguma coisa, sim: uma homenagem, uma memória, um segundo olhar. A fita não poderá mais ser estendida, mas a fração de espírito capturada em seu magnetismo inspirará, por muito, nós que ainda nos estendemos por aqui.
"Before she went to Australia Trish sent me a mix CD of bonkers pop music she compiled, I never thanked her. It's called Mind-Bending Motorway Mix and I want to share it with you, please pass the link on, share it far and wide, it's a little tribute to a (as a friend referred to her today) exhilarating woman (...) Sorry I don't have a tracklist and to be honest I like it that way. I think it's less about who you're listening to on... that compilation and more about the fact you are listening to something that Trish took time to select and compile for me and in turn yourselves. Sorry but please just enjoy the music." (via)
Que notícia chocante! Ontem tinha lido que a Trish Keenan, vocalista do Broadcast estava bem doente e internada em um hospital há duas semanas. Agora acabei de ler que ela se foi.
Eu e o Fernando assistimos um show lindo do Broadcast no final de 2009, na Philadelphia, onde eles tocaram com o Atlas Sound. O lugar não era comum para tal, era uma igreja, mas poucos artistas de encaixariam tão bem no ambiente quanto os dois.
Aqui está o comunicado oficial da Warp, gravadora da dupla, na íntegra:
It is with great sadness we announce that Trish Keenan from Broadcast passed away at 9am this morning in hospital. She died from complications with pneumonia after battling the illness for two weeks in intensive care.
Our thoughts go out to James, Martin, her friends and her family and we request that the public respect their wishes for privacy at this time.
This is an untimely tragic loss and we will miss Trish dearly - a unique voice, an extraordinary talent and a beautiful human being. Rest in Peace.
Fomos pegar um ônibus em Chinatown. Destino: Philadelphia. Com ticket na mão, em pé no corredor, ouço que não há lugares. Acabamos esperando por meia hora, na chuva, pelo próximo veículo. Coisa boba, pois veríamos Broadcast. E Atlas Sound. Em uma igreja. Por 12 dólares.
Embarcamos, finalmente. Estava podre, mas dormir naquele ônibus clandestino não seria uma boa ideia; acordar dentro de uma banheira, com um rasgo no torso, não parecia uma hipótese descabida. O alívio só veio com a visão da estação final.
Na Philadelphia, tudo foi mais tranquilo. Andamos, comemos, vimos prédios lindos. Próxima à tal igreja, havia uma loja somente de cervejas - todas geladas! A oferta era tamanha, que a escolha foi de acordo com o poder de atração do design das garrafas, uma mais linda que a outra. Seis dólares depois, com o saco de papel marrom preenchido na mão, entramos na First Unitarian Church.
Tirando a terapia de choque católica a que fui submetido durante o intercâmbio, entrei umas 5 vezes em igrejas. Achei graça, pois, da minha volta em grande estilo. A bebida alcoólica na mão era uma afronta permitida àquele local que eu tanto detestava.
Mas a rebeldia durou pouco: acabei simpatizando com o lugar. A raiva virou admiração, e a sinceridade da mensagem de tolerância até me balançou para a causa deles. Jovens, cervejas e shows de rock, dentro de uma igreja! E sem pedidos por dízimos, argumentos de venda sobre o homem de Nazaré ou qualquer restrição às apresentações das bandas. Uau. Quase me converteram. Quase.
Broadcast foi arte. Show conceitual, em que a dupla ficou no escuro e deu o palco para as projeções mais impressionates que já vi na vida, feitas por The Focus Group (Julian House), em sincronia perfeita com as músicas. Gradualmente, o repertório, que começou como experimentos abstratos em sintetizadores, foi tomando a forma das músicas que eu tanto ouvi na minha vida (Corporeal, Black Cat...) e novidades. Em alguns momentos, a supostamente serena Trish, dona daquela voz tão indiferente, vociferou: arrumem o lixo deste som. Não deve ter percebido que ninguém estava incomodado.
Broadcast - Corporeal
Depois, o fim da noite coube ao Atlas Sound. Qualquer leitor do blog sabe do meu fanatismo pela música do senhor Bradford Cox. Logo, confesso que algumas pequenas lágrimas escaparam ao ver a lânguida figura dele no palco, tão frágil, afinando e tocando múltiplos instrumentos, como se o seu destino não estivesse traçado. E o show não tinha começado ainda! Ouvir sua voz angelical, pois o local permite o uso do clichê, seria o fim.
Uma tangente explicativa: a morte costuma vir cedo para quem sofre da Síndrome de Marfan. E desarma ver que a existência de alguém tão talentoso possa ser negada por algo tão estúpido.
Mas a tristeza teve que passar, pois a música surgiu, com loops de guitarra, efeitos múltiplos, gaitas, eletricidade e acústica. A força do Atlas Sound não está em seu estilo, mas em virtudes superlativas: melodias lindas, texturas sonoras, composições que movem. E entre as canções, para dar cabo da minha depressão inicial, o raciocínio rápido de Bradford não falhava em tirar risadas da plateia.
O show foi perfeito. Nem precisava ter sido em uma igreja. Mas foi. Sentado no chão, a um metro do palco, Red Stripe no papel marrom e pilha de vinis ao lado. Não queria ir embora, mas tive que atender ao desejo do Bradford, "have a safe trip", em toda a sua delicada simpatia. A segurança da viagem, eu não podia garantir, mas a felicidade no caminho de volta seria certa.
O Broadcast está lançando o mini disco (como os próprios chamam) Broadcast & The Focus Group Investigate Witch Cults of the Radio Age. No caso, o The Focus Group é Julian House, amigo de longa data da banda, e o responsável por toda a parte visual deles, além de co-fundador do selo Ghost Box.
Esse clipe é o primeiro do álbum, que já está disponível para download no iTunes e no Bleep. Mas se você é que nem eu, e prefere uma versão física do disco, ele estará disponível para venda em CD e vinil a partir do dia 26 de outubro. Já dá para fazer um pre order aqui.