Mostrando postagens com marcador club de las serpientes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador club de las serpientes. Mostrar todas as postagens

17 de junho de 2009

club de las serpientes #30 - natalia lafourcade

natalia lafourcade
Quando João era pequeno, o importante é ser bonito por dentro. Brigou sete vezes no primeiro semestre da terceira série. E ficou cansado de números. No recreio, Juliana disse, perto da cantina, não quero beijar você. E ele amou o travesseiro a noite toda. Numa terça-feira de 2004, à noite, no shopping com os pais, ficou profundamente triste ao ver os dois melhores amigos na espera do Fifties. Nenhum convite. Estudou para o vestibular. Vou mudar de vida. De jeito. De roupa e de cabelo. Comprou óculos novos e, alternativo, bem, bem mais bonito. Leu Retrato de um artista quando jovem e Putas assasinas. Ouviu Sonic Youth e Radio Dept. Viu Terra treme e decorou dois diálogos de Os sonhadores.
Ficou irresistível. E, ontem, desmontou inteiro, quando, pela primeira vez, invadiu o jeito úmido e macio de Natalia dizer "hu, hu, cariño".
Rodrigo Maceira







[MP3: natalia lafourcade - ella es bonita]
http://www.myspace.com/natalialafourcade

10 de junho de 2009

club de las serpientes #29 - mersey

mersey
(NADA PERSONAL CON LOS DOMINGOS)

Celinha, 27 anos, universitária tardia, pensa em amor e Hopi Hari 9 meses ao ano.


Domingo quero te encontrar
E desabafar todo o meu sofrer
Estar ao teu lado, esquecer de tudo
Tudo que o amor até hoje nos fez sofrer

Camila, 26, FM e trilhas de cinema, prefere chorar em dias frios, quando a boca seca e fica salgadinha. E ri um pouco de si mesma. Dificuldades com letras em inglês.

Oh do you know
Where to go
Where to go

Sunday* on your mind
Wanna leave me behind
Wanna leave me behind

* Something

Marcinha. Aos 19 anos, sonhou com Londres. Aos 23, com Nova York. Aos 31, com Sandra. Primeiro beijo, de muito medo, num domingo de 2002.

Hide on the promenade
Etch a postcard :
"How I dearly wish I was not here"
In the seaside town
...that they forgot to bomb
Come, come, come - nuclear bomb

Everyday is like sunday
Everyday is silent and grey

Marta. Nasceu em Guadalajara. No primeiro show do U2, na Cidade do México, esperou, sem roupa, e eternamente, Bono Vox - na suite errada.

HOW LONG, HOW LONG MUST WE SING THIS SONG?
HOW LONG? TONIGHT WE CAN BE AS ONE.
TONIGHT, TONIGHT

Penélope, portenha. Trocou os óculos de aros escuros por uma armação leve; esperou muito da viagem que faria para Montevidéu. Decepcionada, faltou ao casamento de Lux, a melhor amiga.

Los domingos
son un día más
salvo si te suicidás

Rodrigo Maceira







[MP3: mersey - nada personal con los domingos]
www.myspace.com/merseybanda

5 de junho de 2009

club de las serpientes #28 - el zoológico

el zoologico
Alguém me perguntou: como é que você dança em San Juan? Fiquei surpreso, confesso. Achava que dançava igual em todas as cidades. Dias depois, tomei um avião para Nova York. Encontrei uma amiga, casada com um americano. Valéria me disse que você esteve em San Juan, right? Estive, sim. Bonita. E diferente. Dançou por lá? Achei estranha a pergunta, de novo. À noite, jantei na casa de uma casal de amigos, no Brooklyn. Dominicano e porto-riquenha. Comemos comida mexicana. Achei engraçado. Depois de alguma tequila e muito mezcal, mejor, mucho mejor, Laura levantou, vou colocar a música de um amigo meu. Daqui?, quis saber. Não, não. De San Juan.

Laura e Antonio pegaram a mão um do outro. Tiraram o sapato. Arrebentaram a meia. E dançaram. Juro: dançaram feliz e tan lindo que fiquei bobo. Así bailamos en San Juan, viste?
Rodrigo Maceira







[MP3: el zoológico - mr. frog]
http://www.myspace.com/elzoologico

29 de maio de 2009

club de las serpientes #27 - boom boom clan



Pensei: nome de mulher, nome de mulher. Que a gente viu, teve ou só sonhou. Pensei, enquanto o IL repetia: gravamos um disco inteiro e vamos ficar solteiros. Como é que é? Boom Boom Clan acabou, meu caro, acabou. Decidimos terminar. Essas mulheres todas vão ficar abandonadas. As mulheres eram as músicas - e ainda não vi nada parecido por aqui.
Rodrigo Maceira

Boom Boom Clan – Monika
http://www.myspace.com/boomboomclan

19 de maio de 2009

club de las serpientes #26 - círculo polar anárquico

circulo polar anarquico
Ushuaia sempre me faz pensar na história de um amigo meu. A namorada e ele decidiram passar o inverno com pouco dinheiro e muito frio. Quando me contou, pensei que fosse uma espécie de provação. Se resistissem, era amor de verdade. O Lucas é fotógrafo. Comprou um casaco pesado, grande, três ou quatro camadas de uma espécie de camurça sintética. Lucas não come carne. A Lucía juntou tudo numa mochila. O tudo dela, segundo o Lucas, sempre foi pouca coisa. E olha que a garota tem plata, mucha plata. Conheci a Lucía na Livraria Cultura, aqui em São Paulo. Anotei uma lista imensa de novos autores argentinos, recomendações suas, e, depois, entendi o encanto do Lucas com a garota. Mi madre es una mujer libre, me disse. Os corações revolucionários só se apaixonam por mulheres livres, escrevi para o Lucas, semanas depois. De toda essa história, de tudo o que eu sei e não sei sobre Lucas y Lucía, hoje separados, fiquei com a declaração de amor mais bonita que aprendi na vida. Fazia três dias que Lucas tirava fotos de Ushuaia. Montanha de um lado, horizonte infinito do outro, o limite da beleza azul, sempre melancolia, que nunca se repete fora da Argentina. Num determinado momento, Lucía pediu a câmera. Espera, quiero hacer una foto. Quando o Lucas saiu do enquadramento, para não obstruir a paisagem, Lucía disse, naturalmente: "não quero foto de Ushuaia, querido, quiero una foto tuya, mi amor”. Revi o retrato outro dia: é lindo.
Rodrigo Maceira







[MP3: circulo polar anarquico - guantes que no abrigan nada]
myspace.com/cancionesdeplastico

27 de abril de 2009

club de las serpientes #25 - clovis

clovis

De onde você é?
Madrid.
Notei um sotaque diferente. Sabe essa coisa de accent?
Ahn?
Não. Nada, não.
Conhece?
O quê?
Madrid.
Infelizmente, não.
Deveria. Bonita.
Imagino. O que é que você faz lá?
Eu? Tenho uma banda.
Banda?
É. Meio rock, meio pop.
Delícia.
Deu para se divertir bastante.
Que ótimo.
É. Muito bom mesmo.
Tem disco?
Tem, tem.
Quantos? Dá pra ouvir?
Claro. Me deixa teu endereço que te mando um dia desses.
Rodrigo Maceira







[MP3: clovis - um día de estos]
myspace.com/mundoclovis

5 de março de 2009

club de las serpientes #24 - 107 faunos


Pequeña Honduras, 4 dias, 3 noites. Inclui aéreo e transfer aeroporto-hotel-aeroporto. A partir de US$899.

Pequeña Honduras, cantinho apaixonado. Piscina e espelho. Proibida a entrada de menores de 18 anos. R$ 46.

Pequeña Honduras. Tradição e inovação na cozinha do Caribe. Tortillas e frijoles a preço justo. A especialidade da casa é a pupusa, servida em porções generosas. Acompanha jugo de tamarindo. Comem 2 pessoas.

Departamento Gracias a Dios, Pequeña Honduras. Juliana e eu, 1972.

Pequeña Honduras espera, donde el cielo es azul y te amo. 2' 18''.
Rodrigo Maceira

107 FAUNOS - Pequeña Honduras
myspace.com/los107

17 de fevereiro de 2009

club de las serpientes #23 - relaciones sexuales

relaciones sexuales
hummm wow wow wuahhhhh wuahhhhh ãaaaaaaff uuuhhhh hummm hemmm hiiiii foooofffffooofoof uuuuhhuuuhhuuhhuuhuu hiaammm nhá nhá nhá yé yé deusdeusdeus haaaaa haaaaaf haaaar eeeeeeeehhhhhe eeeeehhhhhhh aiaiai vaivaivai aaaaaaaaaaahhhh hummmm hummmmm hummmmm quaquaquaquaqua nhãããããããã wuahhh hhiiuuu hhhiuuuuuu huiiiiiiaaaa ahaha arran arran nhec nhec nhec nhec ploft ploft plofff ploffff frrrush frusshhh aaaaaaaaiiii aaaaiiii ãaahhhh ãaaannnnnn uhuuu ahhhh uhuuu quaquaquaquaaaaaa zzzzzzzzzzzz fffiuuuuuuu ffffiuuuuuuuu papapapapapapapapapapa mãããããp muuup plaff blullulululu blululululu blulullulululu aaahhhhffff aaahhhhfffff waaaauuuuuu waaaauauuuuuu ahf ahf ahf ahf nhec nhec nhec oooorrrooouuu urrraaaaaah wahhh wahhhhh rarn rarn rarn inh inh inho huhummm nhac nhac nhac tchlu tchlu tchlu ahhhnnn aahhhnnn aahhnnn uuushhh uushhhh ufff ffff fffff ffffiaaaaah fuuuuu fuuuu hummmm ihiiii ihiiii ihiii haaaaaa haaaaaa haaaaaa wooooo wooooo wooooo wooooo ahhhh éééééééé uhu uhu aha aha ehe ehe ehe hehehehe hehehehehe haaaafffff hãrrrf foi.
Rodrigo Maceira







[MP3: relaciones sexuales - haciendo el amor]
myspace.com/relacionessexuales

6 de fevereiro de 2009

club de las serpientes #22 - el mato a un policia motorizado

el mato a un policia motorizado
Amanheci com mortos uma porção de vezes. Meu quarto é um sebo. Defuntos dentro e fora dos livros. E discos. Tem aquela dedicatória da Eliana que não sai da minha cabeça. É o jeito como assina, acho. "Eliana Dedo Forte". O que será que quis dizer com isso? E quando? Caracas!

Hoje, senhores, completamente diferente. Não pensei em ninguém quando acordei. Nem tive excitação alguma, apesar do hábito de todos os dias. Nem senti frio, apesar do vento; muito menos calor, a despeito das janelas hermeticamente fechadas. Ouvi pouca coisa, uma formiga andando no ouvido, impressão. No escuro, exageradamente tranquilo. Sozinho, sem medo. Mudo e em paz. Com uma sensação esquisita: a ideia de Finados como o último dia. Estou confuso, confesso - a chuva lá fora é chuva de setembro.
Rodrigo Maceira







[MP3: el mato a un policia motorizado - rey del terror]
myspace.com/elmatoaunpoliciamotorizado

29 de janeiro de 2009

club de las serpientes #21 - laura wrona

laura wrona
Quando eu era pequeno, meu vô não me deixava comer ovo. Tinha histórico de colesterol alto na família. Na verdade, nunca cheguei a saber se a história era verdade ou mais um lenda que meu avô contava simplesmente por contar alguma coisa. A gente conversava pouco. Inclusive quando saíamos juntos para escolher o presente no dia do meu aniversário. Só me lembro dele rindo nessas horas, porque meu brinquedo favorito seria tanto um arco e flecha, de ventosa, quanto um kit Zorro. "De novo, filho?"

Pensei nisso, agora há pouco, depois do almoço aqui na casa da Lília. O pai dela fez ovo. Ovo pochet - dez minutos até eu aprender o nome. E repetir direito. "O-vo-po-ché". No mês passado, fiz 46 anos. Agora, aqui no sofá, diante do jogo, estou sentindo um ligeiro incômodo: o colesterol desregrado ou a saudade de tudo que não experimentei na esperança de viver um ou dois minutos a mais.
Rodrigo Maceira

***

Laura Wrona faz show no Berlin, nessa sexta, dia 30/01. Música de estofo, voz de artista, letras maiúsculas. Se eu vou? Até cair bêbado.

Você abre 2009 com um show no Berlin. Um bom começo?
Sim, sim, foi ótimo ter recebido esse convite para tocar logo em janeiro, pois me estimulou a dar continuidade a esse projeto. Foi também um momento propício, pois ainda não retomamos os ensaios do Aspen e pude convocar reforços para o show!

Além das faixas no myspace, que outras músicas fazem parte do set?
Além de "Valsa das Vontades", "Baleia","Ovo Poché" e "Por que Pra que" (faixas do myspace), tocaremos "Sofrendo Mais", "Dentes" e um cover com surpresa.

Planos de lançar um disco/ep? E novas gravações?
Penso em gravar as músicas em estúdio, pois minhas gravações são supercaseiras, com direito aos barulhos acidentais de campainha, gato tendo ataque, essas coisas. As gravações que faço têm acontecido dessa maneira, e a ideia é organizar o material para compor um disco, quem sabe ainda neste ano.

Você compõe, escreve as letras, inclui os barulhinhos e canta em todas as músicas, certo? Qual a melhor parte?
Gosto muito de gravar as vozes, de sobrepor e brincar com as possibilidades dos efeitos. Sei bem pouco de gravação, então tudo parece incrível. Pena que ao vivo ainda não saiba reproduzir o que registro em casa.

Um disco definitivo.
Um só? Puts. Rubber Soul, dos Beatles. Ouvi um monte e acho que nunca direi "chega".

laura wrona - ovo poché
http://myspace.com/lalarilala

23 de janeiro de 2009

club de las serpientes #20 - entre ríos



Não contei para mais ninguém. Um pouco de vergonha - ou timidez. Uma vez, era pequeno, uns 6 ou 7 anos. Inventaram um carnaval no clube de alguém. Disse não; homem rebelde diz não. E, depois de 12 minutos, tive que dizer sim, ou não vai para Juquehy. Fidel passou três meses de estrepolias entre Miami e Nova York, antes da revolução. Com tudo pago - pelo pai. Tudo bem. Fui até o armário, cabisbaixo, improvisar alguma fantasia. Abri a porta, as gavetas. E me vesti com a única roupa de super-herói que eu tinha. Um batman de capa vermelha. Meia hora num ginásio suado, confete e serpentina no pescoço, sem graça alguma, refúgio no parquinho. Brinquedos cheios, eu, estrangeiro, com receio de arranjar briga por falta de lugar. Fui para a fila do carrossel. Lá dentro, bem no meio, um molequinho rodava o aro que fazia o carrossel rodar no sentido inverso. Quase a xícara da Cidade das Crianças. Em São Bernardo. Quando chegou a minha vez, perdi o controle. Girei demais o timão. Eu e o moleque. Criançadinha gritando, mãe mandando, para, deixa disso, diabo. Eu, por um triz; a mão suando na barra, perdendo contato, é um, é dois, é três, a asa acionada, o voo de seis metros, metros e meio, meu melhor carnaval.
Rodrigo Maceira

entre ríos - temprano
myspace.com/entrerios

16 de dezembro de 2008

um programa obrigatório (na verdade, três)

juan stewart
O incrível Rodrigo Maceira - aquele do Club de las Serpientes, sabe? - está organizando 3 shows obrigatórios no SESC Vila Mariana. No palco, a nova música latino-americana. Destaque para o lindíssimo novo show do Juan Stewart - aquele da Entonces, sabe?

O Dominódromo, claro, estará lá. Todas as noites. E ele acha que você deveria aparecer também.

Franny Glass, Caramelitus e Juan Stewart trazem a nova música do Cone Sul a São Paulo
Independentes da Argentina, do Chile e Uruguai fazem única apresentação no Sesc Vila Mariana


Nos próximos dias 16, 17 e 18 de dezembro, o projeto Cone Sul em Movimento traz ao auditório do SESC Vila Mariana importantes nomes da atual música independente do Uruguai, do Chile e da Argentina. A pequena mostra é o primeiro episódio da trilogia La Joven Guardia, que, em 2009, continuará apresentando jovens artistas da América Latina e da Espanha ao público brasileiro.

Sobre os artistas:

Gonzalo Deniz, o Franny Glass, é uma jovem revelação do novo folk uruguaio. Compositor, intérprete e cineasta, publicou Con la mente perdida en intereses secretos, em 2007, e prepara o lançamento de Hay un cuerpo tirado en la calle ainda para 2008. Seu trabalho aponta influências de Fernando Cabrera e Belle & Sebastian. No Brasil, apresenta-se no formato voz e violão. myspace.com/32canciones

Camila Moreno e Töm Preuss, os Caramelitus, combinam raízes da música latino-americana e texturas eletrônicas, passeando por gêneros como folktronica, dreampop e trip hop. Em sua estréia em São Paulo, a dupla chilena mostra o repertório de El otro habitat, disco virtual publicado em 2008, com influências de Björk, Luzmila Carpio, Violeta Parra e Cocteau Twins. myspace.com/caramelitus

Juan Stewart apresenta em São Paulo o repertório do seu quarto disco solo, Los días (Estamos Felices, 2008). Em seu novo trabalho, o compositor, que tem no currículo colaborações com o novo cinema argentino, dirige todas as atenções para o piano. Melodias minimalistas, efeitos eletrônicos e ambiências, com o acompanhamento de Javier Diz na bateria e na guitarra. myspace.com/juanstewart

Serviço:
CONE SUL EM MOVIMENTO

Franny Glass, Uruguai
16 de dezembro de 2008, às 20h / R$12

Caramelitus, Chile
17 de dezembro de 2008, às 20h / R$12

Juan Stewart, Argentina
18 de dezembro de 2008, às 20h / R$12

Sesc Vila Mariana - Auditório
Rua Pelotas, 141 - São Paulo

INFORMAÇÕES:
http://www.silabaosilbido.com/conesul/
myspace.com/sinopuedobailar
silaba@silabaosilbido.com

14 de outubro de 2008

club de las serpientes #19 - loopdrop

loopdrop
Eu sei, pode parecer loucura, vai de quem quiser acreditar. A gente nunca acha que a nossa vida pode ser cinema. O cotidiano burocrático, a fila no terminal de ônibus, o troco de 1 centavo roubado no caixa do supermercado. Nada disso reforça a possibilidade de uma aventura especial. Caraca. Aí, quando surgiu o convite de viagem, completamente inesperado, tive medo da dívida a prazo e das quase 50 vezes no cartão, Dow Jones, Nasdaq, crédito no osso. Vai ser bom, Gustavo, repeti as 6 horas da noite que me manteve acordado, sem dormir. Férias, rapaz, larga de ser covarde, pomba, a vida passando, a ex-namorada casando, movimento, señor, arriba e adelante!. O espírito com que entrei no avião, frágil, dobrado imediatamente após as 8 horas de vôo (se não fui traído pelo fuso). Na cidade, meio em pânico, a água e a luz atrasadas - por cinco dias em Monterrey? Já foi, Gustavo. Tudo bem. O Alejandro e a Diana, dia inteiro fora, no trabalho; privacidade de hotel. Acordei, descansado, xícara de leite frio, uma volta no quarteirão, a loja de disco aqui do lado, igualzinha, igualzinha, chamando para dançar, com jeito de Eva Green, a chica com quem dormiria todas as noites da minha vida, à base daquele mesmo mantra, "Triciclo", e de um sem número de doses de conhaque, saudade e imaginação.
Rodrigo Maceira







[MP3: loopdrop - triciclo]
myspace.com/loopdrop

7 de outubro de 2008

club de las serpientes #18 - hacia dos veranos

hacia dos veranos
Los quemados surgiram como um trio (Víctor, Xavi e Ada), em meados de 96, em Barberà del Vallès. A pequena cidade, originalmente uma das tantas cidades-dormitório que alimentaram o processo de urbanização de Barcelona, parece ter sido grande influências para a banda. Ídolos anarquistas, pouco patriotismo, literatura, decepções diversas: com amores e amigos, ironia e castelhanismos povoam as letras da trupe liderada pelo argentino Víctor J. Perguntado sobre o papel dos Quemados na cena espanhola dos 90, Víctor disse não acreditar em papéis: "no final das contas, somos uma banda pop. Ajudamos as pessoas a matar o tempo. Sei que não era esse o objetivo dos amigos que se reuniram para compor e escrever letras inflamadas, há coisa de 10 anos. Mas tudo acontece, assim, devagar. Hoje, quando cantam nossas músicas, querem apenas lembrar uma melodia bonita". A banda encerrou as atividades, com Carol Electra no baixo, em 2002.
Rodrigo Maceira







[MP3: hacia dos veranos - los quemados]
myspace.com/haciadosveranos

2 de setembro de 2008

club de las serpientes #17 - el sueño de la casa propia

el sue`no de la casa propia
É. Eu cresci ouvindo falar da casa própria, do demônio do aluguel, do condomínio-pra-vida-toda, da Tele-Sena e da Porta da Esperança, no SBT; do caminhão do Faustão, na Globo, e das mil e uma casas da Nestlé, nos dois canais ao mesmo tempo - muito foda o Nescau do café da manhã. Expressão melódica, perfeita, o sonho, próprio, tudo redondo, não tem coisa melhor. Já viu? Aí, hoje, depois de um tumulto do cão no metrô, a Sé de sexta-feira, a pressa de ser feliz em casa, que vontade de um fim de semana para sempre. Vocês sabem como é: a gente tropeça no Guia da Folha, tem Flap!, tão sonho e literária, completamente independente. Flip para os intelectuais que colecionan as xícaras da Caras; Flap para um blog de 10 leitores. Mas fui, troquei idéia, "Viva la conexión", gritaram na porta da Casa das Rosas. E antes de eu passar: "seu passaporte?". Gozado, a poesia de hoje curiosamente não está feita para as pessoas de agora. Não? Cheguei em casa, abri o livro: Saludos para mi nuevo amigo Rodrigo. E folheei aos poucos, preguiça, fim cinzento da sexta-feira que eu quis para sempre. Página 69, revelação: a casa própria era só para eu comer a Marcela em paz, sem ter que apertar a boca e fechar a porta do quarto.

El sueño de la casa propia

La vieja dijo clarito
- la casa es mía y yo mando
duermen solos, cuidadito
si no se me van cascando

Y va a seguir de sapa
después de muerta,
aunque le ponga llave a nuestra puerta

A nuestra puerta, sí
tremendo atado
andar por esta vida
como allegado

No prendo ni las teles
de los moteles

(Rascacielos, Enrique Winter - p. 69)

- tradução livre -

A velha disse claramente
- a casa é minha e eu mando
dormem sozinhos, ouviram
senão, vocês me matam

E a velha vai continuar atormentando
depois de morta
mesmo que eu passe a chave na nossa porta

A nossa porta mesmo
tremendo amarrado
andar por esta vida
como eterno inquilino

Não ligo nem as tvs
dos motéis

Rodrigo Maceira







[MP3: el sueño de la casa propia - ropa interior]
myspace.com/delacasapropia

21 de agosto de 2008

club de las serpientes #16 - valentín y los volcanes

valetin y los volcanes

Varreu o lugar com olhos curiosos, "simpático". Levantei para pedir duas cervejas. Conversamos. Sobre O jardineiro fiel, e rimos por causa do título que ganhara em Portugal, invertido no Brasil. Falou de António Alçada Baptista, recomendou Catarina ou o sabor da maçã. Ouvimos pop, cantamos rock. Mas ficamos sem dançar. E, bebendo, enfrentamos o acaso. "Acaso? As conversas contigo são pouco óbvias, procuram formas complicadas, lugares cavernosos, sentimentos escuros. Gosto disso. Não sei por quê. Talvez seja o jeito com que dizes cada letra; muda tudo, as palavras ficam irreconhecíveis e duplicam minha atenção". "Serei mais previsível", repliquei, "têm obviedades que vêm para o bem". Mas o acaso, era por ele que chegara ali depois de tantos projetos descosturados. Que falava do meu jeito, com meu português. Que sentia os lábios gelados e as mãos frias num inverno de janeiro. "Não acreditas em destino?" "Destino? Não, não sei dizer. Destino é para os que habitam a terra de Deus, estou errado?".
Rodrigo Maceira


[MP3: valentín y los volcanes - baila conmigo]
myspace.com/valentinylosvolcanes

24 de julho de 2008

club de las serpientes #15 - arturo en el barco

arturo en el barco
Ah, filha, vai, sim, querida, claro, linda, oficina de artes, amiguinhos, importante na fase de adaptação. Ou acha que vão tocar a campainha perguntando por você? Besteira, gente nova, um monte de coisa boa, e você adora arte, não adora? No meio de um monte de criança estranha, falando rápido, que difícil, Deus, blá, blá, blá, o meu, agora é com a canetinha, se faz azul, ou deixo lilás, como faço para colar sem marcar as bolhas. Angélica, recém-chegada, tive tanta aula de inglês, mas, assim, confusa, tão difícil entender. Vai dar tudo certo, Angel, pode ficar tranqüila, a professora de olho violeta, cabelo longo, atriz de cinema. E vem a dúvida, como pergunto, se vão rir de mim, tem jeito que não consigo falar, som que cruza o dente e tropeça, todo encabulado. Empresta a tesoura, o papel amarelo da ponta, levanta, pequena, cheia de timidez, se eu posso? Arrasta o desenho até o chão, cheio de picote metalizado, é para terminar em paz, ufa, quase acabando, até foi bom, quietinha, nem prestaram atenção em mim, mas, não, que nada, antes do tempo, que vem o garoto loiro, Keith, o nome, acho, aponta pra baixo, olhando pra cima, mexe comigo, gelada, ai, passo, a ship?, que bonito, or a boat?, talvez dê certo. Tomara.
Rodrigo Maceira







[MP3: arturo en el barco - mi barco]
myspace.com/arturoenelbarco

10 de julho de 2008

club de las serpientes #14 - diosque

diosque
Sei, pra ter vergonha, esquecer até, ou só lembrar em sonho, tamanho descontrole. Mas veio a palavra, difícil evitar. O professor de Física se preparando, última conversa no corredor, porta verde, pequena janelinha na altura dos olhos, ajeitando o zíper, meio redondo, Seu Barriga chamaram, comia trinta balas de mel durante a aula, confundindo meu sobrenome com o do Luis, na cadeira de trás. E suava horrores, a camisa lavada, marca preta em volta da unha, espiando o sutiã no ombro da Aline, rápido, salivento, a equação, Marcelo, aqui na frente, agora ou pra fora. E levantei desarmado, o resto medindo, babaca, falta de idéia, só se for vingança. Vingança, a noite inteira, seguinte, o preço do vexame, ridículo diante de todo mundo, sei lá que outra vez. Amanhã, armei, disfarço no intervalo, não saio, escondido, antes do gordo entrar, tem um primeiro "oi", a lista de chamada, lousa cheia da lição de História, o preparo da matéria, a dinâmica de sempre, teoria de uma lado, exercício do outro, estranhando, grudado no dedo, ai, fedor, cheiro medonho, porra, que merda é essa no apagador?
Rodrigo Maceira

myspace.com/diosque
[MP3: Diosque - Basural]

4 de julho de 2008

club de las serpientes #13 - carrie


Durante a semana que passei no México, DF, conheci um grupo de garotas num bar perdido na Colonia Condesa. Brasil? Qué bien! E seguiram com pouco comum brasileiros por aqui, bem menos corriqueiro do que se imagina. Se é para pagar US$900, a gente prefere Miami. A comemorar el encuentro, no? Hay fiesta na casa de uma amiga aqui do lado, te parece? Ou join us, pen-de-jo, brincando, a morena de franja comprida, cruzada na testa. Aquí, la mayoría nos llevamos más o menos bien con el inglés. No tan bien con el portugués, risadinha. Sei, sei, pensei. Lembrei do disco da Carrie, que tinha em casa, 1981. Sí, sí, me da la sensación de que lo lleváis genial. Buey, qué acento español, he? Minha mãe e alguns anos em Vigo, expliquei. Vinha flertando com ela tinha tempo. Laura. Y usted? Bom, inventamos vários temas para conversa, adivinhei as músicas que tocavam na sala, percorremos os cômodos da casa, arrumei a franja mais de uma vez, bebemos mezcal, comemos doritos, dançamos "Djobi Djoba" e ouvi Austin TV, acredita? Trocamos duas ou três palavras sobre literatura, anotei o nome Gustavo Sainz, rimos, até sentir saudades, e terminamos a noite lá pelas 4h, passeando com a Tibita, a Yorkshire gorda da família. Gracinha.
Rodrigo Maceira

myspace.com/carriestatic
[MP3: Carrie - Feeding Little Dogs]

29 de junho de 2008

club de las serpientes #12 - ondo


Aí, pensei: enquanto gasto os dias com o anúncio da Ajinomoto, e reclamo experiência simplesmente por estar mais velho, alguém corre pelado num bosque perto de Estocolmo. Ontem, de frente para um pôster, entendi o lema da exposição que vi em 2003. Enquanto um colega aqui do lado está lendo, interessado, o mexe-remexe do mercado publicitário, respiro um pouco menos agoniado, marcada a página 376 de Los detectives salvajes - eu, no México, na cômoda do quarto. Mas tem esse texto, aqui no monitor, um título sem tempero, uma míni depressão. Porque do projeto de erguer um romance latino-americano, em dois planos, com três personagens centrais, fico com a página dupla da Veja, e um rodapé vagabundo. Mais a insistência de uma crase que só existe na gramática da gerente de produto. Ignorante. Eu, que tenho as melhores conversas do trabalho com a Rose, da limpeza, fico sonhando com um bar e dois interlocutores verdadeiramente interessantes, efeito da solidão, do i-pod e da fantasia no ouvido. Cheguei não faz 20 minutos, tarde, queria ter certeza de que estariam esperando por mim. Quando toquei "Mirame" na caixinha de som, feliz, praticamente encantado, ninguém, ninguém mesmo, deu a mínima atenção.
Rodrigo Maceira

[MP3: Ondo - Mirame]
myspace.com/ondouno