10 de julho de 2008

club de las serpientes #14 - diosque

diosque
Sei, pra ter vergonha, esquecer até, ou só lembrar em sonho, tamanho descontrole. Mas veio a palavra, difícil evitar. O professor de Física se preparando, última conversa no corredor, porta verde, pequena janelinha na altura dos olhos, ajeitando o zíper, meio redondo, Seu Barriga chamaram, comia trinta balas de mel durante a aula, confundindo meu sobrenome com o do Luis, na cadeira de trás. E suava horrores, a camisa lavada, marca preta em volta da unha, espiando o sutiã no ombro da Aline, rápido, salivento, a equação, Marcelo, aqui na frente, agora ou pra fora. E levantei desarmado, o resto medindo, babaca, falta de idéia, só se for vingança. Vingança, a noite inteira, seguinte, o preço do vexame, ridículo diante de todo mundo, sei lá que outra vez. Amanhã, armei, disfarço no intervalo, não saio, escondido, antes do gordo entrar, tem um primeiro "oi", a lista de chamada, lousa cheia da lição de História, o preparo da matéria, a dinâmica de sempre, teoria de uma lado, exercício do outro, estranhando, grudado no dedo, ai, fedor, cheiro medonho, porra, que merda é essa no apagador?
Rodrigo Maceira

myspace.com/diosque
[MP3: Diosque - Basural]

9 de julho de 2008

mp3 do dia - wire

wire
Qual seria a melhor maneira de envelhecer com dignidade?

1) ser coerente com tudo aquilo que te formou na juventude, sem passar o ridículo de tentar se adaptar ao mundo atual, ou...
2) na verdade, tentar se manter atual, corrente, arriscando-se sempre para não ficar estagnado em uma era passada?

Para ser sincero, nos meus planos de envelhecimento, tramados por uma cabeça de 26 anos - uma grande incoerência, eu sei... -, estava convicto em aderir à segunda opção. Mas ao ouvir One of Us, do Wire, comecei a considerar a primeira.

Ainda que tivessem músicas belíssimas como Outdoor Miner e The 15th, a essência do Wire sempre foi uma só: seca, minimalista, pulsante. E One of Us, feita com as mesmas ferramentas do passado dos ingleses, ainda soa contemporânea, e dá um couro em quase todas as atuais bandas de moleques tocando post-punk. Claro que essa proeza fica mais fácil quando, na sua juventude, você estava 20 anos à frente dos outros.

Logo, não estranhem se eu começar a me vestir, falar, escrever, dançar de maneira estranha. A vanguarda será o meu plano de previdência.


[MP3: wire - one of us]
do disco Project 47 (pink flag, 2008)

estréia: albert hammond - gfc

estréia: julian casablancas, n.e.r.d. and santogold: my drive thru

modest mouse mostra música nova em show

A faixa se chama Satellite Skin e deve entrar no próximo disco dos caras, que ainda não tem data de lançamento prevista. Eu achei a música bem meia boca. O que acharam?

estréia: the verve - love is noise

8 de julho de 2008

er... rata

1) Fiz uma edição apressada no texto do Mogwai - após "The Hawk is Howling (2008)", tirei a frase entre vírgulas "o disco novo do Mogwai", mas deixei uma delas para trás, que acabou por separar o sujeito do predicado. O horror!!!

2) Além disso, no Grouper, "emocionam" era "emocionais". Aproveitei e dei uma arrumada nas coisas.

Agora, os textos estão corrigidos, e o universo, em paz, afinal. Vocês estão liberados para lê-los e também ouvir suas músicas - muito boas, por sinal.

Dominódromo: servindo bem para servir de vez em quando.

estréia: brendan canning - hit the wall

7 de julho de 2008

mp3 do dia - grouper

grouper
Via de regra, não somos felizes, nem tristes. Ficamos no meio, balançando para lá e para cá, sem muita resolução. Por isso que os extremos emocionais na música, tão distantes da nossa constante apatia, nos comovem tanto. De um lado, há o carnaval, naquela alegria alienada e intransigente de cores, batidas e carne; do outro, há a música de introspecção, como a da senhorita Liz Harris, ou Grouper, equilibrando-se entre o ascetismo da ambient music a delicadeza melódica do dream-pop.

Dos dois extremos, é essa melancolia que, de fato, mexe comigo. Como ela é mais bela do que a marchinha, o samba, ou qualquer música deliberadamente feliz!

As razões desse masoquismo sonoro são incompreendidas, mas ele é um fato. Seu sentido surge, lá dentro, nos primeiros ruídos de Heavy Water/I'd Rather Be Sleeping. Fingir a felicidade não é mais necessário; a música já está a reverberar com a nossa real tristeza interna.

O corpo começa a reagir, as toneladas de areia começam a se deslocar, revelando templos, estátuas, artefatos das nossas origens sombrias. Por 3 minutos, nossas vísceras ficam lá, expostas e a céu aberto, em uma fragilidade que jamais permitimos a nós mesmos.

Essa música é individual, solitária, no quarto com porta fechada ou no fone de ouvido. A interrupção seria o nosso colapso. Não podemos nem ao menos ser vistos por outros enquanto nesse estado só nosso, de gestos, olhares e bocas que nunca revelamos. Seríamos vivisseccionados.


[MP3: grouper - heavy water / i'd rather be sleeping]
do disco dragging a dead deer up a hill (type records, 2008)

estréia: bloc party - mercury