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13 de maio de 2009

era uma vez #6 - belleatec

belleatec
O belleatec surgiu como um projeto de Tarcila Broder, do Rio, e do produtor mineiro Paulo Beto. Mas só tomou a forma que inspira este post, tempos depois, com a entrada de Rodrigo Gorky e Corey Cunninghan. Exatamente isso: Rodrigo, que hoje está no Bonde do Rolê, e o Corey, agora no ótimo Magic Bullets. Sempre me lembro de uma história engraçada: quando conheci o Rodrigo, comprou o Pet Sounds, lá nas Grandes Galerias, aqui em São Paulo, e ficou completamente enlouquecido, o olho cheio d’água. Morava em Curitiba na época.

Tetra Pak, único registro distribuído pela banda, quase virou um 7’’ pela Elefant, de Madrid. Uma pequena obra-prima, com três músicas, todas entre o pop e o eletroacústico. “Caos”, “Sophia” e “Tetra Pak” são inteligentes, bonitas, pra frente, uma MPB Morr Music. Não à toa foi parar nas mãos do John Peel, entrando para a programação da Radio 1, da BBC. Recentemente, preparando a coletânea Pero esse olor en el cuarto del piano, fui surpreendido com a presença do belleatec entre as principais influências do supercombo Boom Boom Clan, de Caracas.

Roubando a citação que a Tarcila incluiu no myspace póstumo da banda: “como diria o Jean Cocteau, não existem os precursores, existem apenas os atrasados.
Rodrigo Maceira







[MP3: belleatec - caos]
myspace.com/belleatec

8 de maio de 2009

era uma vez #5: charllote's suit - alice's dream

charllote's suit
Existiu uma fita chamada Slag Sampler #1. Obviamente, porque existiu um selo chamado Slag, que reuniu uma porção de gente com tato e gosto refinado para o mundo do rock. Muita gente sabe disso. Mas nem todo mundo chegou a conhecer alguns artistas interessantes que giraram ao redor do eixo Slag, no final dos 90.

Quando ouvi "Alice's dream", fiquei maluco. Porque, com toda a embalagem lo-fi, mixagem caseira e ambiência suja, foi das coisas mais bonitas que o rock independente dos 90 ofecereu por aqui. Climática, cinematográfica e linda no limite. Tensão escola Thurston Moore, arranjo à la Dean Wareham e melodias meio Mr. Cigarettes, Marcelo Colares. E isso tudo tinha um dono, uma cabeça - Pedro Palhares e seu Charllote's Suit, com dois "Ls" e um "T". 2 eles e 1 tê. Tempo depois, li o mesmo nome nos créditos de um curta que vi na Cinemateca, vazia, numa seleção de trabalhos universitários. Pedro Palhares. Sem nunca ter certeza, entendi que era a mesma pessoa. O filme era sensorial - colagens de cores, imagens-movimento. Bem podia ser um sonho de Alice. E foi - sendo até hoje.
Rodrigo Maceira







[MP3: charllote's suit - alice's dream]
myspace.com/charllotesuit

25 de março de 2009

era uma vez #4: comespace - a most enjoyable day

comespace
Independência nos anos 90 era uma vocação de dois gumes: pioneirismo e solidão. Assumir uma influência alternativa, paralela ao mainstream, em dias que não conheciam o mp3, atirava o artista numa ilha visionária, muitas vezes deserta. Você e mais ninguém.

Comespace, banda que, além do Glauco e do Wayne, tinha o maestro Gilberto Custódio, do Lazer Guided Melodies, na formação, foi referência absoluta das noites de pedais e distorções do Retrô. Camadas e camadas de guitarras, drones, vocais afogados, melodias ácidas, passeios psicodélicos, estrobo e muita fumaça fizeram de Having never flown a spaceship before um registro sem par na história do rock nacional. Entre 94 e 95, o grupo absorveu as (então) remotas influências de Flying Saucer Attack, Seefeel e Spiritualized, somando heranças de ídolos shoegaze e alguma precocidade post rock. Mais tarde, a banda experimentou uma segunda fase com Luiz Cláudio Jr., hoje no Fotograma, na guitarra.

“A most enjoyable day” também foi incluída na coletânea Don't be afraid my son... #1, publicada em 96, com 11 artistas independentes nacionais. História!!!!!
Rodrigo Maceira







[MP3: comespace - a most enjoyable day]

17 de março de 2009

era uma vez #3: blueberry - west of hill

blueberry
O indie pop, adorado e odiado entre os independentes, nunca foi muito popular por aqui. Curiosamente, o Brasil teve interessantes e, em alguns casos, importantes representantes do gênero. Pale Sunday e Postal Blue são, sem sombra de dúvida, os artistas que maior espaço e destaque alcançaram no gênero. Mas não estiveram sozinhos.

O Blueberry, do DF, gravou um ep com quatro faixas, Fisrt Time, em 99. Três boas canções e um hit muito acima da média. “West of Hill” é indie pop redondo, redondo, com vocal garoto e garota, ponte, refrão, guitarras doces e melodia rimada. Alguns anos depois, indiquei a banda, entre várias outras, para uma coletânea com artistas brasileiros editada no Japão. Katsuya, o curador, rasgou elogios – e japonês, convenhamos, tem bastante crédito para falar de indie pop!







[MP3: blueberry - west of hill]

6 de março de 2009

era uma vez #2: feedback club - happiness

feedback club
Fui feliz por toda a vida no dia em que ouvi Experience Machine, minha primeira demo do Feedback Club. A descoberta de que existiam artistas nacionais que casavam com minha fantasia adolescente. Por menos brasileira que fosse a música, por inglês que estivessem as letras, o que eu queria para rechear minhas gavetas do quarto. Sonic Youth num dedo do pé, Guided num calo da mão. Guta, guitarrista e porta-voz do trio, tinha entrado em contato comigo por e-mail. Mandou um pacote caprichado, remetente: Florianópolis. Passamos a trocar diversos e-mails, com fotos e histórias sobre a banda. Os projetos anteriores de cada um. Sabrina tinha tocado no Sleepwalkers, parada obrigatória dos que quisessem trilhar os atalhos do indie nacional. O próprio Gutta, egresso do Gutta Percha. Ouvi fita a fita, hora a hora - o segredo do rewind mecânico, demorado, e a ansiedade de escutar uma segunda e terceira vez, que deixam a música sempre melhor.

“Happiness” teve diferentes versões. Originalmente, esteve em Experience Machine. Depois, ganhou um arranjo meio tropical e entrou para terceira demo do Feedback, Fast..., todas distribuídas pela midsummer madness, do Rio. Além da versão de Fast..., gentileza de Mr. Lariú, recuperei a gravação tosca que tinha de um Lado B especial com artistas nacionais. Verdadeira raridade!!! Voz, cordas e distorções levinhas. Beleza, beleza.







[MP3: feedback club - happiness]







[MP3: feedback club - happiness (fast)]

4 de março de 2009

era uma vez #1: vellocet - sunflowers on a reel


Começa hoje o especial Era Uma Vez, uma retrospectiva de 21 clássicos do indie nacional, escrita por Rodrigo Maceira. A introdução é do próprio, que estava lá, quando tudo isso aconteceu.

Once upon a time

Há dez anos, enquanto me divertia baixando músicas via AudioGalaxy e colecionava letras numa pasta polionda, decidi bolar um site, coisa simples, que reunisse artistas independentes nacionais. Naquela época, falava-se muito em guitar bands. Guitar ou indie, praticamente equivalentes. Lembro perfeitamente que precisava soletrar meu e-mail. Pouca gente sabia o que seria um indieplace@hotmail.com. Num determinado momento, para aliviar o ruído, forcei uma sigla besta, mas funcional. Indie Place virou IP.

A página durou pouco mais de dois anos e reuniu muita coisa, heranças de antes e legado que a própria história do site somou. Atualizava a página todos os sábados. E guardava qualquer manual de HTML que viesse num jornal. Passava madrugadas com a conexão ativa, o tempo do "pulso único". E o carteiro que entregava as correspondências em casa me conhecia pelo nome.

Esse retrospecto, no fundo, é uma festa particular. Mas tem também, espero, a missão de apontar nomes e, em alguns casos, recuperar personagens que pensaram e agiram à frente, na lógica do ipod da rapaziadinha que hoje faz fila no StudioSP. Esqueci milhões de detalhes: nomes, títulos, ano e lugar. O mais importante, acho, são as músicas e os artistas, pingados nos próximos dias, que souberam entender a revolución da música na última década do século passado.

Bom apetite.

Rodrigo Maceira

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Era uma vez #1 - Vellocet - "Sunflowers on a reel"

"Sunflowers on a reel", nessa versão batizada de diet, estava na Demonstration tape no 1, fitinha lançada pela Slag, em 99 (se não me engano). Um dos grandes momentos do ano e, sem dúvida, uma das principais demos do catálogo do selo. Belas melodias e harmonias vocais, guitarras emparelhadas, letras boas e em inglês, com refrões matadores: "And the sun will open up your eyes, and the sun will see some rainbows here"! Quando resenhei a fita anos atrás, falei, não sei bem a razão, em Catherine Wheel. Agora, escutando de novo, vejo que tem Ride, com sotaque mineiro, e alguma coisa do Bluetones, tudo muito bem costurado.







[MP3: vellocet - sunflowers on a reel]

Não sei exatamente como, nem em que medida, mas os Vellocet desdobraram-se em Valv, Multisofá, Tênis e Bay King Music, sempre em BH. Deixo também o clipe de "Inside my mind (again)".