14 de novembro de 2007

lcd soundsystem em são paulo causa epifania no dominódromo

A dobradinha The Field e LCD Soundsystem não vendeu bem. Por quê? Talvez pela concentração de eventos caros em um período tão curto do ano. Sobrou dinheiro para poucos. E aí o raciocínio econômico fala mais alto: "ah, já vi o LCD Soundsystem uma vez... Por que gastar dinheiro para vê-lo novamente?" Eu digo o motivo: Sound of Silver. Fora a possibilidade de ver a banda em um show próprio, e não como penduricalho de festival. Por isso que chateou ver um número de pessoas tão aquém do que merecia o evento.

A outra engraçada constatação é a do pequeno tamanho da audiência para "música moderna", digamos. Além dos conhecidos, claro, você acaba por sempre enxergar as mesmas 40 pessoas em todos os lugares que frequenta. Em uma cidade com 20 milhões de pessoas, como somos poucos! Do LCD ao showzinho no SESC, do Indie Stage do Planeta Terra à festa do TIM Festival na The Week, da loja de roupas à balada, do last.fm aos comments em blogs, há uma ridícula variância no público. E não é uma questão de superioridade, mas de peculiaridade. Não há um universo de 2.000 pessoas com o mesmo conjunto de peculiaridades culturais, dividindo-se entre quatro opções possíveis de programa. São 200, todas na única opção que soa sensata.

The Field foi ignorado pela platéia. O cara saiu meio ofendido pela indiferença. Também, como daria para criar algum clima de pista em um local com os degraus e o pé direito do Via Funchal? As pessoas preferiram ficar no fundo, olhando de longe, conversando, frequentando o bar. O pouco volume do som não colaborava, mas as músicas deveriam ter sido o suficientes para o público. Especialmente The Little Heart Beats so Fast e Everyday (e sua espetacular virada). Não foi o caso. Algum club deveria ter agendado o cara.

A história do show do LCD Soundsystem resume-se a um momento: o absurdo de Yeah ao vivo. Impressionei-me pela técnica, o foco, a energia gerada pela performance, pela incitação dos instintos mais primitivos da platéia - por pura força percussiva -, pela quebra das convenções da música popular. Get Innocuous, All my Friends, Tribulations, Someone Great... Todas foram espetaculares, provas de pura consistência artística, de aversão ao filler, ao meia-boca. Mas foi Yeah que causou uma epifania para mim. Vou explicá-la para vocês.

James Murphy é famoso, elogiado, idolatrado. Mas eu nunca tinha constatado uma coisa: o LCD Soundsystem é uma dos nomes mais relevantes da cultura contemporânea. Bombástico, hein? Mas é um fato para mim. Como o LCD é pertinente, fundamental, necessário! Ver uma apresentação de Murphy e sua trupe é como enxergar o processo de um capítulo da história da música, uma elusiva performance de um artista em seu pico, mostrando a fundação de uma carreira que ainda trará discos e músicas elementares à cultura pop. O som é uma entidade, viva, pulsante, dançante, uma homenagem ao analógico, sem perder a noção de contemporaneidade, muito orgânico para ser a fria música eletrônica, e com muito coração e alma para ser o inócuo disco-punk. Gêneros são para idiotas, e a confluência de referências antigas e modernas que tece a malha dessas músicas comprovam o ouvido de ouro e o puro dom musical de James Murphy. E suas letras representam a zeitgeist dos anos 00, a existência cotidiana e artística, da angústia à catarse, de forma reta e franca. O retrato de sua cabeça, suas histórias, sua forma de pensar e seus valores soa estritamente pessoal, em princípio, mas acaba por se propagar para qualquer um que ama música, amigos e a inefável sensação da juventude.

Dizem que o sujeito é arrogante. Pode ser. Mas não dá diminuir o talento dele por questões de personalidade. Ou reduzir o LCD Soundsystem a som de festa ou música meramente divertida, porém sem profundidade. O cara acredita na música que faz, com fanatismo e convicção. Nem parece que a faz pelos outros, mas apesar deles.

Foto: Marcelo Pereira/Terra

Um comentário:

Thiago disse...

Bonito texto Fernando. O show do LCD foi mesmo memorável. Foi dançante para um amante de eletrônica e, ao mesmo tempo, elaborado para um roqueiro. E é justamente esse precioso talento do J.Murphy que o torna tão necessário à música contemporânea. Numa época de fusões de estilos e perigosa perda de identidade, o cara consegue se encontrar e proporcionar aos nossos ouvidos tudo aquilo que sonhamos. Achei o show efêmero e hipnótico, talvez por efeito da caipiroska? Acho que não...abraço ae